17/04/1996: Ocorre o Massacre de Eldorado dos Carajás

Marcha no velório massacre de Eldorado dos Carajás

No dia 17 de abril de 1996, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) realizava uma passeata de mais de 670 km partindo do município de Curinópolis, no Pará, até a capital, Belém. A passeata tinha como objetivo exigir a desapropriação da fazenda Macaxeira, assim como a aceleração da reforma agrária no Brasil prometida pelo então presidente da república, Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

Os cerca de 1.500 Sem-Terra integrantes da passeata bloquearam um trecho da estrada chamado de “curva do S”, localizado próximo a fazenda Macaxeira, no município de Eldorado dos Carajás, por volta das 17h. Pouco tempo depois, uma tropa da polícia militar de Parauapebas chega por um lado da manifestação; logo em seguida, outra tropa da PM, essa vinda de Marabá, cercava os manifestantes pelo outro lado da estrada.

No total, 155 PMs haviam cercado a manifestação dos Sem-Terra, criando uma emboscada que resultou num massacre, quando 21 Sem-Terra foram mortos, dentre eles 13 dirigentes ou secretários do MST. 

Oito pessoas foram mortas a tiro e as marcas de bala na cabeça e no peito dos assassinados evidenciam que o objetivo da polícia era matar, não amedrontar. As outras 11 pessoas foram brutalmente assassinadas com pedaços pontiagudos de madeira, foices e facões, além de 2 que morreram depois de serem socorridos. Cerca 69 militantes Sem-Terra ficaram feridos, em contrapartida com os 11 policiais que tiveram alguma lesão. 

Dos 155 PMs envolvidos no massacre, apenas dois foram condenados: o coronel Mário Colares Pantoja, condenado a 228 anos de prisão e responsável pela tropa da PM vinda de Marabá, e o major José Maria Pereira de Oliveira, condenado a 158 anos de prisão e responsável pela tropa da PM vinda de Parauapebas.

O MST afirma que entre os mandantes do crime estavam o governador do Pará na época, Almir Gabriel (PSDB), e os fazendeiros da região — incluindo o dono da fazenda Macaxeira —, uma vez que a fazenda Macaxeira e outras terras próximas já estavam ocupadas com milhares de famílias do movimento.

 

“O que eu assisti aqui parecia uma guerra. Vi os soldados lutando que parecia uma guerra com outro país […] uma bala passou raspando na minha cabeça. Olhe o rasgão que deu. Se eu fosse um pouquinho mais alto, tinha morrido. E mesmo assim, eles dizem que atiraram só na perna da gente. Até agora está doendo. Mas, tem nada não. Ainda estou vivo, graças a Deus.”

Relato de Luis de Souza, sobrevivente do massacre, à Folha de SP, em 1996.

 

O primeiro suspeito de ter executado um dos líderes dos sem-terra no conflito de quarta-feira passado já foi identificado pelo Ministério Público do Pará. É o sargento Getúlio Marques, da PM (Polícia Militar) de Marabá, Leste do Estado.

Os investigadores chegaram até o nome do sargento por intermédio do boné do militar e do depoimento de uma menina de 13 anos que presenciou o massacre e cujo nome é mantido sob sigilo.

No relato que fez a promotores, a testemunha contou que viu quando o sargento atirou a queima roupa em Oziel Alves Pereira, 17, depois de ele ter sido retirado de uma casa onde estava escondido.

A menina disse que pegou o boné do sargento depois do confronto. A peça trazia identificado o primeiro nome do militar e está com promotores que cuidam do caso.”

Matéria da Folha de SP, 23 de abril de 1996

 

O acontecimento chegou a ter repercussão internacional e o dia 17 de abril acabou se tornando o Dia Internacional de Luta dos Trabalhadores do Campo, em homenagem aos mortos no massacre de Eldorado dos Carajás. Em memória dos assassinados, foi levantado um monumento projetado por Oscar Niemeyer no município de Marabá, no dia 7 de setembro de 1996, entretanto, ele foi destruído no dia 22 do mesmo mês. 

Dirigentes do MST afirmaram que o ato havia sido feito por um grupo de latifundiários. Niemeyer declarou que, embora com  raiva, não estava surpreso porque “aconteceu o mesmo quando levantamos o monumento em homenagem aos operários mortos pelo Exército na ocupação da CSN, em Volta Redonda, no Rio de Janeiro”.

Em abril de 1999, os sobreviventes do massacre construíram o Monumento das Castanheiras Queimadas, na curva do S, uma para cada trabalhador morto no massacre em conjunto com um altar com o nome de cada uma das vítimas.

Depois do massacre, os Sem-Terra continuaram ocupando a fazenda Macaxeira. Parte dela foi considerada improdutiva e então desapropriada, sendo o local do novo assentamento nomeado como Assentamento 17 de abril. Uma semana depois do ocorrido também foi confirmada a criação do Ministério da Reforma Agrária.

 

Nomes dos 19 assassinados no Massacre do Eldorado dos Carajás

Abílio Alves Rabelo

Altamiro Ricardo da Silva

Amâncio dos Santos Silva

Antônio Costa Diaz

Antônio Alves da Cruz

Antônio, conhecido como “Irmão” (algumas fontes afirmam que seu nome é Antônio Iran do Nascimento)

Graciano Olimpio de Souza

João Carneiro da Silva

João Rodrigues Araújo

Joaquim Pereira Veras

José Alves da Silva

José Ribamar Alves de Souza

Lourival da Costa Santana

Leonardo Batista de Almeida

Manoel Gomes de Souza

Oziel Alves Pereira

Raimundo Lopes Pereira

Robson Vitor Sobrinho

Valdemir Ferreira da Silva

As duas pessoas que morreram no hospital não foram identificadas.

 

Imagens do Massacre de Eldorado dos Carajás

 

Documentário “Curva do S – O relato de um massacre”

 

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