02/10/1992: Ocorre o massacre do Carandiru

No dia 2 de outubro de 1992 ocorre o massacre do Carandiru.

A Casa de Detenção de São Paulo, popularmente conhecida como Carandiru, já foi classificado como o maior presídio da América Latina e, em suas últimas décadas de funcionamento, era marcado pela superlotação — o que hoje é uma realidade em grande parte dos presídios brasileiros.

No dia 02 de outubro de 1992, no Pavilhão 9, ocorria um jogo de futebol entre os detentos que decidiria qual time levaria o título de “campeão do Carandiru”. Segundo relatos dos sobreviventes, ao sair do jogo os presos ouviram rumores de uma briga entre dois detentos, algo que era considerado normal. Entretanto, um do envolvidos se machucou gravemente e não foi socorrido pelos agentes penitenciários, fato que iniciou uma rebelião no Carandiru. É evidente que a negligência com o preso ferido foi um estopim para a situação precária do presídio, que sofria com superlotação, doenças entre os presos e descaso total com todos os cidadãos do local.

De acordo com um sobrevivente do massacre, rebeliões também eram consideradas corriqueiras no presídio. Entretanto, desta vez a rebelião não conseguiu ser reprimida rapidamente pelos agentes penitenciários e um incêndio na cozinha, de causa desconhecida, foi usado como justificativa final para a chamada de reforços policiais ao Pavilhão 9.

Após ver as proporções e consequências que a rebelião iria levar, os presos decidem entregar as armas — que, em geral, eram canivetes, facas e outros pequenos objetos cortantes — e as jogam pela janela da prisão, rendendo-se antes que qualquer coisa pior acontecesse. Na versão da polícia, os presos começaram a jogar armas nos mais de 300 policiais — embora o responsável pela operação, Coronel Ubiratan, afirmasse que eram apenas 86 — que esperavam uma ordem de invasão do presídio, ato que teria sido o estopim e serviu como argumento final para a invasão definitiva do pavilhão — mesmo não tendo sido comprovado.

A ordem de invasão foi dada pelo secretário de Segurança Pública de São Paulo, Pedro Franco de Campos, sem autorização do então governador,  Luiz Antônio Fleury Filho, que depois declarou que “Não dei a ordem [de entrada da PM], mas, se estivesse no meu gabinete, com as informações que eu recebi, teria dado a ordem […] Não há dúvida alguma de que era necessária e se fazia necessária a entrada da PM naquelas circunstâncias, foi legítima e necessária”.

A versão da polícia sobre a invasão afirma que, ao entrarem, os policiais foram emboscados e estavam sendo atingidos por diferentes objetos, além de tiros. Entretanto, de acordo com a versão dos sobreviventes — e com os dados da perícia — os presos já haviam jogado suas armas pela janela e se rendido, tendo muitos deles sido mortos dentro de suas próprias celas. Algumas pessoas acabaram sobrevivendo por se esconderem embaixo desses corpos baleados pela polícia.

“A gente resistiu à entrada do Choque. Antes de a polícia chegar, o diretor [do presídio] foi até lá pedir para parar, e a gente concordou. Mas o Choque veio e houve uma reação […] Eu sabia que ia apanhar, que ia correr, que ia ficar pelado no pátio. Isso era a rotina. Mas, quando abrem as portas para todo mundo, todos os policiais, dão início ao massacre. Estava no terceiro andar do Pavilhão 9. Eles mataram sem critério. Entraram atirando, abriam as boquetas das portas e iam atirando nas celas. Nas celas que já estavam abertas, eles atiravam nos presos. Até os irmãos, os crentes, foram mortos, que não tinham nada a ver com nada, eles não participavam dos conflitos”, relatou o sobrevivente Edivaldo Godoy.

Os números oficiais apresentam 111 detentos mortos e incontáveis feridos, embora os sobreviventes relatem cerca de 250, sem contar aqueles que morreram posteriormente devido aos ferimentos. A violência e a proporção do massacre geraram especulações de que os responsáveis pelo presídio aproveitaram a oportunidade para “desafogar” um pouco a superlotação. De acordo com o Coronel Ubiratan “só morreu quem entrou em confronto com a polícia”, embora os relatos dos sobreviventes e os dados da perícia indiquem que dificilmente algum confronto por parte dos presos tenha ocorrido. “Não houve massacre nenhum no Carandiru […] agimos no estrito cumprimento do dever legal, e a ordem foi restaurada”, afirmou o coronel.

“Os policiais abriram as portas, e de cada 10 presos que passavam eles empurravam dois ou três no fosso [do elevador, que estava quebrado]. Imagina, uma queda de cinco andares… Quando vi que estavam fazendo isso mudei meu lugar na fila pra ficar mais perto da escada e escapar do vão”, relatou o sobrevivente Sidney Sales, na época com 24 anos.

“Vai acontecer um milagre na sua vida […] Estou com esse molho de chaves do andar todo aqui. Vou escolher uma. Se bater no cadeado, girar e a porta abrir você vive. Se não, vou te executar. Você morre aqui mesmo no corredor”, disse um dos policiais a Sidney, que teve a sorte do policial ter utilizado a chave certa e a porta abrir. Sobreviventes também relatam que havia um helicóptero sobrevoando o presídio e atirando em quem aparecesse pela frente.

Todos os presos vivos foram então retirados da estrutura, sendo obrigados a tirarem as roupas e se enfileirarem na quadra do pavilhão. Os sobreviventes relatam que o volume de sangue nos corredores se misturou com a água de canos estourados pelas balas da polícia, dando a verdadeira impressão de um rio de sangue que poderia cobrir os pés dos que passavam. Após isso, alguns detentos foram selecionados para retirar os corpos da estrutura e, inclusive, modificar os cenários do massacre, dificultando a análise da perícia sobre o acontecimento.

 

No final do dia, os números divulgados à imprensa foram de 8 detentos mortos. Entretanto, devido a impossibilidade de esconder o massacre, os números oficiais foram publicados e o caso ganhou grandes proporções, chamando atenção para a situação dos presídios brasileiros.

Entre 300 e 330 policiais participaram da ação, muitos sem identificação. Destes, cerca de 74 foram condenados pelo júri popular, incluindo o coronel Ubiratan, condenado a seis séculos de prisão. Entretanto, esses policiais — inclusive o coronel — foram absolvidos nos anos seguintes, fato que, na prática indica que todas as autoridades que participaram da ação saíram impunes, assim como algumas famílias de presos da época não foram indenizadas até hoje.

A produção cultural em torno do acontecimento foi significativa. O livro “Estação Carandiru”, de Dráuzio Varella, contém seus relatos sobre os anos em que fez um trabalho voluntário como médico no presídio, que coincidem com o ano do massacre. O livro, de 1999, foi adaptado para o filme “Carandiru”, lançado em 2003 e dirigido por Hector Babenco.

Em 1997 foi lançado “Diário de um detento”, do grupo de rap paulista Racionais MCs, que relatou o acontecimento em forma de música. Outros grupos e artistas independentes como Pavilhão 9, Facção Central, Sabotage, Sepultura, Caetano Veloso e Gilberto Gil também lançaram músicas sobre o assunto.

Em 2003 o presídio foi desativado completamente e algum de seus pavilhões foram implodidos, dando espaço para  o Parque da Juventude, a Biblioteca de São Paulo, duas escolas técnicas estaduais, a ETEC de Artes e a ETEC Parque da Juventude, além de áreas recreativas, como pistas de skate e passarelas. No local ainda são marcados encontros com sobreviventes para que estes tenham oportunidade de contar suas histórias.

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